Empatia - um presente de vida

Capa

Comentários desta edição

Esta edição foi levemente alterada em relação ao original, que foi entregue a minha esposa como presente de aniversário. Ela possui leves alterações nos últimos capítulos para torna-la levemente mais abrangente. Apesar de ser uma versão orientada a ser apresentada para pessoas que estimo, ainda não deixa de ser uma obra intrinsecamente orientada a minha convicção e mente, e portanto, nada mais do que opiniões pessoais que eventualmente confirmei serem de total igualdade com a de minha esposa.

Como comentário extra para quem não conheça, a capa desta obra não foi desenhada por mim,mas trata-se da arte de Hinayuki Usa, da qual reconstruí algumas partes que não possuíam na imagem original e adicionei o fundo. Para mais fabulosas imagens de animação japonesa visite minha galeria.

Prólogo

O presente, o passado e o futuro estão conectados. Talvez da filosofia oriental, talvez de uma crença pessoal, talvez da união de diversas experiências, mas o que importa é que esta relação, no final, pode explicar muito do funcionamento humano.

O passado que ocorreu ainda persiste em nossas memórias, em nossos corações. O tempo e o lugar podem ter mudado e se passado, mas certamente os fatos que ocorreram e vivenciamos permanecem em nosso ser, fazendo parte de nossas vidas. O passado continua a ocorrer eternamente em nossas mentes, seja consciente ou não. É do passado que nós nos formamos e moldamos para nosso ser atual.

O futuro, por outro lado, virá sorrateiramente, sem percebermos. No entanto, o que somos e fazemos hoje, da mesma forma como o passado definiu quem nós somos e fazemos hoje, esta relacionado ao nosso ser presente. Portanto, o futuro ocorre também hoje, assim como o hoje é fruto do ontem.

E na relatividade do tempo, o único certo é que nós somos na verdade um único Ser. O “eu” ontem e o “eu” amanhã são apenas parte de um todo, com um leve estado diferente.

Talvez tudo isto seja óbvio, mas na verdade, indiferente de notarmos, acreditarmos, aceitarmos ou não, isto define algo de muito importante: a causa e efeito também fazem parte de nosso Ser, até os confins de nosso Ego. O que fazemos ou deixamos de fazer, o que somos, e o que faremos, estão todos conectados. Mas com nossa limitada psique, como podemos absorver tudo isto, compreender e aprender? O hoje, o aqui, geralmente já é complexo demais para absorvermos, quanto mais toda nossa existência.

Seria impossível, portanto, o Ser Humano dar um passo para trás e ver a grande pintura de sua vida, e com ela, aprender qual o seu papel na vida, na sociedade, e acima de tudo, sua obrigação consigo mesmo? Ou será que podemos mapear tudo isto em apenas uma dicotomia simples?

Livros de auto-ajuda, Profetas, documentários, grandes obras literárias, a sociedade e suas leis, a religião, filosofia, até novelas e reality shows: Todos, e inumeráveis outros, já tentaram direcionar o homem para o caminho “certo”, para seu objetivo na vida. Alguns dão boas dicas, uma cartilha sugestiva a ser seguida, enquanto outros outorgam e exigem ações e reações. Todos, a seu modo, tentam ensinar algo que acreditam ser a última versão da “verdade” e do “certo”. Todos, em igual teor e forma, fracassaram amargamente. Existe uma, e apenas uma grande lição a ser aprendida, uma das poucas verdades absolutas do ser humano que a história, justamente ao ser ignorada, provou correta, e é que o ser humano é incapaz de aprender com a história, e há de repetir seus erros (e dos outros) tantas vezes seja necessário, portanto, para sempre. Todas estas obras estão fadadas ao fracasso, e esta também.

Mas alguns aprendem, seja depois de muito errar, seja às vezes até por quase um milagre, aprendendo com o erro dos outros (estes afortunados afrontam o que a história quer provar, conforme parágrafo anterior). Mas qual a maravilhosa característica que permite tais pessoas, remando contra a maré, aprenderem com o erro dos outros ou os próprios, ou ainda, prever e evitar erros sem nunca tê-los cometido ou presenciado?

Assim como as falhas humanas podem ser descritas apenas por uma palavra, esta misteriosa habilidade rara de evoluir moralmente também é facilmente mapeada para uma única palavra: Empatia.

A falha humana? Egoísmo. O que o egoísmo consome, na abolição da inteligência provada pela repetição da história, a empatia resolve com uma leve luz de esperança.


Introdução

Nesta obra abordo minhas percepções, sentimentos e idéias sobre esta interessante dicotomia (egoísmo / empatia), Óbvio para alguns, talvez não tão óbvio pra outros, como para mim mesmo até pouco, no final podemos separar as qualidades e defeitos humanos como uma forma de egoísmo ou empatia.

Antes, no entanto, faz-se necessário um parêntese da extensão de um capítulo para explicar porque esta obra não só é dedicada a minha esposa, como também apenas voltada para ela e, portanto, talvez inútil para outros.

Como dito, é de minha crença que com raras exceções, as pessoas não aprendem – ponto. Os seres humanos, no que diz respeito à ética, moral e bom senso, não aprendem, mas sentem. Não importa que provas, argumentos, fatos ou estatísticas sejam apresentadas, o ser humano só mudará de opinião quando sua mente se abrir e, no milagre da evolução, ele contemplar a nova informação. Em termos simples, todos temos que descobrir a roda, pois enquanto nós mesmos não a virmos, testarmos, e acima de tudo, sentirmos, nem o maior gênio da humanidade será capaz de provar sua utilidade. Analogias à visão e ao despertar do Duhkha budista são válidas.

Entrando no abstrato e bastante pessoal assunto da moral e ética, do certo e errado, isto não é uma regra ~ é uma lei absoluta. As pessoas só aceitam seu comportamento errado quando de alguma forma sentirem o erro – seja finalmente um dia vendo as conseqüências negativas dos mesmos, seja observando os atos que fazem sendo feitos por outros. Só então elas ~ talvez ~ aceitem seu erro.

Para tais pessoas, todos os livros, documentários, psicólogos, filósofos, histórias ou até novelas serão inúteis: eles simplesmente “não vêem”, ou do inglês, “don’t get it”. Por vezes, inclusive, exaltam frases de efeito como se compreendessem ou aceitassem, apenas para 5 minutos depois cometer o mesmo erro. Para tais pessoas, este livro é inútil. Elas irão ou discordar veementemente para preservar seus ideais egoístas, ou aplaudir a obra, apenas para por na estante, indicá-la a amigos, e voltar a cometer os mesmos erros. O Ser Humano é assim, e não podemos fazer nada sobre isto.

Para os poucos que aprenderam os meios da empatia e sabem sentir o ambiente e a sociedade a sua volta, esta obra será de igual inutilidade, pois nada do que esta aqui escrito será novidade, e as que forem, provavelmente elas já praticavam sem saber.

Evitando, portanto, perder o tempo destes, e evitar perder meu tempo com os ataques egoístas daqueles, esta obra faz mais sentido nunca existir. As pessoas irão evoluir em seu próprio ritmo, em seu próprio tempo, em seu próprio belo crepúsculo que separa a escuridão do egoísmo da beleza altruísta da empatia.

No meio tempo, presenteio minha esposa com minha mente, minha alma, e no que ela ainda não souber ou discordar, sei que posso esperar respeito na réplica, e no que ela já faz – que é a maioria das qualidades humanas aliadas a uma fofura extrema, fica apenas a alegria de saber que não esta só neste mundo de hipocrisias egoístas.

Se por ventura esta obra vir a ser lida por outro, espero que tire o melhor proveito, e cá fica o aviso: o que esta exposto aqui, às vezes com bons argumentos, outras apenas leves impressões, é apenas minha “divagação utópica” do que o mundo poderia ser se as pessoas abrissem um pouco mais seus corações para com o próximo.

Também gostaria de deixar claro que esta obra faz extenso uso de uma abordagem empírica do conhecimento e filosofia, mas por vezes, ainda assim cita e menciona outros atores ou antigos sábios, mas que apesar destas citações, a obra é realmente de cunho empírico, e, portanto, tais citações existem apenas para ilustrar a semelhança de minha forma de pensar com a de outros em nossa história, e não como embasamento.

Dedico esta obra a minha esposa, que me ensinou metade do que sei... a outra metade me falta entender (talvez ao escrever esta obra).


Capítulo da lógica - O pequeno planeta

O pequeno planeta gira ao redor de seu próprio eixo em uma inclinação de 23 graus em relação ao plano de rotação do planeta em relação a seu pequeno Sol, a uma confortável distância em que a temperatura da superfície, aquecida por sua estrela, seja tal que a vida seja possível. Ao redor do planeta, uma bonita lua gira em uma órbita síncrona mostrando sempre a mesma face a seu planeta. Outros 8 (dizem agora 7, quem se importa?) ou mais planetas e planetóides acompanham este duo em sua eterna rotação ao redor de seu pequeno sol.

Já o pequeno sol gira lentamente ao redor do núcleo de sua galáxia, que por sua vez, infestada de outros planetas e sóis de vários níveis, se move lentamente, se distanciando de outras galáxias cosmicamente próximas.

Naquele planeta existe vida, e dentre as várias raças paira uma raça inteligente – um animal que não quer ser considerado animal. Uma raça que talvez ninguém mais saiba, ou talvez ninguém queira saber, mas que aos trancos e barrancos existiu esperando entender, por um breve momento, porque por mais que eles se desenvolvessem, evoluíssem e crescessem, sistematicamente todo verão tinham que lidar com outra forma de vida, inferior, completamente ridícula comparada a eles, mas que estava sempre presente: os pernilongos. Uma piada do grande criador do esquema do universo? Ou algo importantíssimo a se aprender?

Mas tudo isto acabou. Os sóis de todas as galáxias extinguiram seu combustível nuclear, os diversos buracos-negros sugaram toda a energia branca das galáxias, os planetas – com ou sem vida – entraram em uma eterna era do gelo, e a distância entre as galáxias tornou-se inimaginável. Agora que os pernilongos não existem mais, aquela raça inteligente não esta mais por perto para ver um de seus maiores sonhos realizados. Não existem mais pernilongos, mas também não existem mais verões.

Durante milênios aquela raça nasceu, cresceu, se apaixonou, viveu, aprendeu, descobriu, evoluiu, envelheceu e morreu. Chegaram a se considerar os donos do mundo, os donos do sistema, os donos da galáxia, os donos da verdade e do universo. Fizeram grandes progressos em todas as áreas – até as sociais- e deixaram sua marca em vários lugares. Mas agora, não há nenhum Ser para desfrutar de seus avanços, não há nenhum Ser em todo o grande universo para ver suas marcas, e talvez, as próprias marcas deixem de existir no gelo infinito do universo sem vida que restou. Talvez o colapso universal atraia toda a matéria de volta a um ponto inicial até o ponto em que a densidade de matéria seja tal que ela sofra uma grande explosão, reiniciando o relógio parado do tempo e recriando novos planetas, sóis, vida e raças inteligentes que irão novamente criar suas marcas neste novo universo, sem jamais saber das que vieram antes – igualmente serão destruídas sem marcas quando este novo universo colapsar. Talvez o universo continue a existir expandindo suas galáxias geladas para todo o sempre. Mas de uma forma ou de outra, aquela raça chegou ao fim, e nada nem ninguém no tempo ou espaço jamais verão suas marcas novamente. Seu legado, apesar de existente no tempo, tornou-se inexistente no sentido.

Conforme deslumbramos o cenário apocalíptico inevitável, uma pergunta paira. Para quê tudo foi feito? Quem ganhou com isto? Qual foi o significado, a razão e o objetivo de tanta dor e sofrimento das raças inteligentes e não inteligentes naquele e talvez outros planetas? Conforme observamos a anã negra resultante do colapso do pequeno sistema onde eles viviam, sem mais nenhuma marca de sua existência prévia, perguntamos repetidas vezes: qual foi o sentido de sua existência breve? Talvez a pergunta seja, precisa ter um sentido? Mas se não, então porque existir?

***

Tudo que existiu e existirá será em vão. Tudo o que for feito será apagado. Tudo o que sabemos e sentimos ou lembramos será levado conosco para o túmulo. Porque, então, viver? O passado nos criou, e o futuro que criarmos será inevitavelmente destruído junto com o universo. Viver pelo passado ou pelo futuro, portanto, não faz sentido. Só nos sobra, portanto, viver pelo presente.

Viver para honrar o sofrimento e a batalha dos antepassados para criar um melhor amanhã? Porque? se no final este amanhã invariavelmente irá desaparecer? No último segundo em que o último homem respirar, toda a história da humanidade e todas as conquistas farão algum sentido? O homem que morre se sente feliz pelo que fez? Talvez – porque ele acredita que terá algum sentido para os que ficam. Mas se não existirem seres que ficam nem aprendam ou continuem o que foi feito? E se o final de uma vida for o final de toda a existência e história?

Na verdade, tudo não é uma hipótese, é um fato. Tudo irá acabar. Porque escrever, por exemplo, se por mais que uma obra faça uma grande diferença para os leitores futuros, se estes leitores futuros e suas atividades eventualmente deixarão de existir tornando a própria obra inútil?

Mas a obra fez diferença para aquelas pessoas, para aquele momento. O segredo da vida não está no que nos fez – no passado – nem em nosso legado – no futuro, mas sim no presente, no que nós sentimos e o que vemos com nossos olhos, e no que deixamos para os outros a nossa volta no presente do agora - no breve momento de nossas existências.

A religião, portanto, surge como uma desesperada fuga da inevitabilidade da destruição, as pessoas criam várias religiões, vários Deuses, e depois competem para ver quem criou o melhor Deus, quem esta certo .. faz sentido? O mundo, sendo inevitavelmente destruído com o tempo, não teria sentido se a humanidade não acreditasse que de alguma forma suas atividades, individuais ou sociais, pudessem ser preservadas de alguma forma – mas se a ciência já provou que o tempo e espaço serão destruídos, então esta forma só poderia estar em outro lugar, algum lugar que não seja afetada pela inevitabilidade do tempo e espaço, um espaço que a ciência não consiga tocar, provar, e, portanto, provar seu fim. A religião baseia-se justamente na impossibilidade de ser provada – qualquer religião ou filosofia que seja palpável o suficiente para ciência explicar, provavelmente estará atrelada ao fim dos dias e, portanto, deixa de ser uma fuga para a inevitabilidade do tempo. “Encontrar Deus significa matar Deus” – ou seja, provar ou encontrar um Deus, provando sua existência dentro de nosso plano de existência (que inevitavelmente deixará de existir), automaticamente torna-o mortal, torna-nos mortais, torna nossa existência efêmera e sem sentido. A única verdadeira religião é aquela onde Deuses – ou nossas essências – são imortais. Não há de fato a necessidade de um (ou vários) Deuses, mas sim de um plano imortal.

A religião então encontra justamente na falta de prova e abstração sua força. Quanto menos provável que uma determinada crença seja afetada pelas leis que regem o universo, menor é a probabilidade – ou pelo menos pensam assim seus seguidores – que ela seja eliminada junto com o universo.

Portanto a opção que deve ser feita é simples, tão simples que confunde a todos: queremos acreditar que nossas vidas têm um significado, que nossas atividades valem alguma coisa, que tudo o que a humanidade passou e passará e nossas descobertas, bondades, guerras, crimes e alegrias significam alguma coisa, ou queremos acreditar que tudo não passa de uma grande ilusão, que não tem significado nem futuro, e independente de qualquer tipo de ação tudo será destruído – ou seja – nossa filosofia de vida não afeta em nada o resultado final e, portanto, podemos destruir ou construir? Diga-se de passagem, destruir, sendo mais simples, torna-se tentador? Talvez aqui esteja explicado porque as pessoas sem esperança e fé em um futuro geralmente tem tendências destrutivas.

Aqueles que querem acreditar que existe um significado pessoal ou social – ou seja – que o que eles sentem e aprendem é importante para eles mesmos, ou que o que eles criam e desenvolvem possa ser importante para os outros e para o futuro, inevitavelmente tem que aceitar que existe algo além de nosso espaço-tempo, além de nosso plano existencial que inevitavelmente será destruído – pois de outra forma, tudo seria em vão. Como isto ocorre, como nomear e como sentir esta existência varia de pessoa para pessoa, e desta variação, nascem as diversas religiões.

Aqueles que acreditam que nada perdurará e tudo será perdido, inclusive o significado de suas próprias vidas, tem uma infeliz vida de desespero, onde nada que façam tem significado. Ser um criminoso ou um herói é indiferente, pois não tem significado. É uma grande pena que algumas pessoas acreditem nisto, porque no fundo, estão deixando de aceitar que existem, que suas vidas podem significar algo. Estão negando a própria existência.

Se a segunda opção – da inexistência de algo mais – da inevitabilidade da destruição e esquecimento – estivesse correta, como explicar a autoconsciência dos Seres Humanos? Porque o leitor esta preso dentro de seu próprio corpo? Porque não naquele ou neste corpo? Porque a vida é vivida na primeira pessoa? Como explicar a complexidade e ao mesmo tempo simplicidade do mundo? Claro, aqueles que não acreditam na existência de algo a mais exatamente aceitaram que não há necessidade de se encontrar uma razão e, portanto, não importa se não faz o mínimo sentido que os seres humanos tenham autoconsciência. Não importa que você seja você, e veja o mundo em primeira pessoa. Não importa que você seja o personagem principal de um planeta cheio de outros seres humanos que não o reconhecem como personagem principal, pois – para eles – eles são o personagem principal.

Mas se não existe sentido, porque você é especial? Porque o mundo esta sendo “vivido” e “observado” de seu único ponto de vista? Porque você é o personagem principal – que por sinal ninguém aceita como tal? A consciência nos força a perceber que somos o personagem principal de nossas vidas, mas se nada perdura, como explicar porque você dentre bilhões de seres humanos possui esta consciência?

Apesar de tantos sinais, nada pode ser provado. No entanto, inegavelmente, temos apenas duas opções: Acreditar que somos um nada, um conjunto de átomos que acontece de estar se movendo e fazendo atividades que inevitavelmente serão destruídas com o final do universo, ou que temos uma razão de existir, e que apesar deste plano ser um dia destruído, algo perdura de alguma forma. Algo que a civilização fez terá significado – ou talvez – algo que fizemos terá significado, sendo a civilização apenas um palco. Para quem, para o que, como? Dificilmente – se não impossível – encontraremos uma resposta (pois estaríamos “tocando” Deus, tornando-o científico, e portanto matando-o. Deus, aqui e doravante nesta obra, significando um plano superior e não uma entidade). Mas o simples fato de aceitarmos é o suficiente para tentarmos o melhor de si para fazer valer.

Uma vida sem sonhos, sem objetivos e sem realizações não é uma vida, é apenas uma existência. Uma pessoa que não crê que algo de sua vida terá validade para futuras gerações (independente de se parte destas futuras gerações estará em outro plano de existência) nada mais é do que um pedaço de carne que consome energia. Porque sonhar em visitar um pais distante, sob o pretexto de que é um sonho que o deixará alegre, se no momento de sua morte tudo isto será esquecido e nada terá tido um mínimo de significado? Se a sua existência não tem um significado, por mais que aceite que neste ou aquele momento você esteja feliz, o tempo não para, e o momento em que você deixará de existir chegará. Sua memória ainda guardará os momentos felizes e significativos? Se nada perdura, a memória também será eliminada. Nada – nem seus sonhos realizados e momentos felizes – terão tido significado mesmo que tenham tido naquele breve momento em que ocorreram. Suas realizações talvez perdurem, mas o universo um dia chegara ao fim, todos que aproveitarem delas também igualmente morreram e a esquecerão, então qual seu significado?

Quando alguns realizam isto, ficam loucos, ficam desesperados, ou simplesmente se suicidam. “Qual é a razão de minha existência?”. Se esta fosse a realidade, quando todos a realizassem, a humanidade simplesmente tornar-se-ia um grande hospício de suicidas psicopatas sem rumo.

Certamente esta não é uma boa razão para vivermos, certamente não é uma boa razão para existirmos. A única saída lógica para aqueles que querem ter sonhos, esperança e fazer algo de útil para sua vida, ou o bem para quem ama, é aceitar que algo de sua atividade terá um significado. Somente assim você esta aceitando sua própria existência. Se você acredita que qualquer coisa por menor que seja tem um significado, então automaticamente estará aceitando que existe um plano existencial onde, quando este plano deixar de existir conforme já comprovado pela ciência, então suas atividades ainda terão um significado – seja para um, dois, ou muitos outros Seres.

E apesar do pequeno planeta ter sido destruído juntamente com todos os Seres e descobertas, ainda assim alguém estará observando, alguém que nunca ninguém na história daquele planeta conseguiu ver ou provar que existia, e dará então um sorriso, lembrando dos momentos difíceis daquele povo, inclusive a cruel dúvida de se alguém estava observando.


Capítulo da busca – Observador ou observado?

Então aceitemos por hora que existe um significado para nossa existência. Certamente, no entanto imediatamente começamos a tentar imaginar qual é este significado, e novamente entramos em um loop filosófico de causa e conseqüência. A existência e seu significado estão mais atrelados a nós, nosso Ego, nosso Ser, ou a nossa civilização, nossa sociedade?

Conforme sabemos, nossa civilização deixará de existir um dia. Os progressos científicos e morais que nossa sociedade tenham, por mais importantes e significativos que sejam, deixarão de existir. Mas isto talvez não seja o suficiente para nos levar a crer que o significado da existência não esteja dentro de um contexto global. Ainda assim, existe outra razão, ainda maior, para acreditarmos não seja assim: Se a razão da existência fosse global, se é uma evolução da civilização e da sociedade, então qual seria a justiça e sentido das existências antes do ápice da civilização? Apenas “bucha de canhão?” Apenas carniça jogada aos tigres? As pessoas e consciências que viveram na bela Grécia ou tumultuada idade média quando ambos os avanços tecnológicos e sociais estavam em sua idade da pedra não tiveram então nenhuma importância em si?

Claro, eles moldaram o início de nossa civilização, que esta ainda no começo de sua evolução social, mas pessoalmente, se a razão da existência fosse atrelada ao todo – à sociedade – o que aquelas pessoas atingiram? Elas não puderam experimentar nenhum avanço tecnológico, não puderam presenciar sociedades mais justas e boas, não tiveram as mesmas oportunidades de evolução pessoal que as pessoas no presente, e ainda mais no futuro, terão. O mundo, portanto, seria injusto com os Egos e Seres se sua razão fosse apenas para evolução da civilização... Civilização esta que como sabemos irá sumir com o universo um dia.

Fica, portanto, um tanto claro que parte, se não toda a razão da existência esteja embutida no Ser e não na sociedade ou no mundo. Nossa vida e existência na verdade esta relacionada ao que faremos ou deixarmos de fazer. Aceitando que os bens que façamos pela sociedade, mesmo sendo importantes para os Seres futuros, serão eventualmente destruídos com a humanidade, e seriam injustos com os que vieram antes de seus adventos, e aceitando a inevitabilidade do fim, temos, portanto que aceitar que o mais importante realmente é o que nossas ações farão para nós mesmos e àqueles imediatamente a nossa volta. O que aprendemos? O que sentimos? O que curtimos?

A razão de viver esta relacionada, portanto, a nossa experiência na vida. Não importa sermos ricos ou famosos, não importa sermos grandes cientistas ou criarmos grandes novidades para a humanidade, mas sim que aprendamos grandes coisas, que melhoremos nossa moral, que paremos um pouco de ser materialistas e tentar criar grandes coisas no mundo material – mortal como já sabemos – e tentemos entender que se algo perdura, e certamente não é o mundo material, então isto esta relacionada a nosso Ser.

E então perguntamos: O que exatamente somos? Se nossas ações são importantes para um plano superior, então nós fazemos parte deste plano superior? Possuímos uma alma? Somos mesmo os personagens principais de nossa vida, ou apenas somos observados por um personagem principal? Temos controle de nossas vidas, certamente, e podemos fazer o que quisermos com ela, mas não temos absolutamente nenhuma memória, ligação ou prova de Deus ou seu plano.

As religiões fogem disto com várias explicações. O espírito passa por um complexo sistema de “amnésia” (ou “anamnésia” segundo Platão) e, quando encarna, não se lembra de nada. Outras explicam que nossas memórias são apenas aquelas de nosso corpo, mas o espírito compartilha ambas, e portanto ao morrermos, apesar do corpo morrer, nosso espírito, que possui apenas uma espécie de “acesso de leitura” de nossas mentes, preservará o que aprendemos, o que vivenciamos, e poderá inclusive, juntando com suas próprias experiências, fazer ainda melhor uso do que observou em nossa existência. E assim portanto também existe a chance de que sejamos somente observados, de que a morte seja o fim, e que o observador esteja apenas observando nossa sociedade para aprender algo.

E se o mundo for um grande simulador de existência? Se formos apenas pequenas entidades autônomas dentro deste simulador que de tempo em tempo é reiniciado com novas variáveis de entrada para poder avaliar melhor o comportamento das entidades? “Esta civilização acabou se destruindo, vamos mudar um pouco as variáveis de entrada e ver como ela se sai agora ...”- pensou a entidade superior? O que foi a vida e existência das entidades? Nada? Talvez, mas nossas ações ainda assim tiveram uma importância para definir que a civilização foi um fracasso ou sucesso. Talvez seja possível que nossas ações agora tenham um reflexo no futuro que venha a fazer com que toda a civilização se redima dentro de um grande esquema, e no final, apesar da civilização ser eliminada, foi uma de nossas ações que a fez encerrar desta ou daquela forma. Ainda assim, isto não resolve o problema de nossa autoconsciência, nosso ego, e estaríamos voltando a pergunta deste capítulo: O universo existe para se experimentar com o universo em si, e nós somos apenas personagens secundários sem um grande papel no grande esquema, ou o universo existe para que nós, os personagens principais, aprendam algo dentro do grande ambiente proposto?

Apesar de presos dentro do universo e sem alternativas sólidas ou provas que possam nos indicar qual das alternativas seja a correta, nós temos uma prova sólida e inegável: nossa consciência. Apesar de não podermos provar que os outros possuem uma consciência, e que somos na verdade o único ser consciente do planeta e, portanto, por estamos vivendo em primeira pessoa, todas as demais pessoas e seres vivos não passam de personagens secundários – simulações ou falsos seres conscientes – ainda assim podemos aceitar que somos conscientes. E por incrível que pareça, partindo do suposto de que somos o único ser consciente, ou que todos os seres inteligentes tem uma consciência e, portanto, são autoconscientes, chegamos a conclusão que estes possuem uma parte importante no desenvolvimento do universo de qualquer forma.

Fosse o universo e sua razão de existir relacionada tão somente a como o grande esquema se desenvolve e analisar como ele chega a seu término a partir de um começo pré-determinado, então seria desnecessário, e talvez até um problema que adiciona um fator “aleatório” dentro da simulação, que um ou todos os seres fossem conscientes. Além disto, para uma simulação de grande porte, as entidades unitárias não precisam ser mais do que apenas autônomas. Se observarmos a história da humanidade, notaremos que se todos os bilhões de pessoas que já existiram e ainda existem fossem apenas pequenos robôs que seguem sua complexa, mas previsível programação, ou se eles são conscientes com uma alma, o resultado ainda seria o mesmo.

Podemos facilmente notar que o corpo humano pode ser autônomo e inteligente sem uma consciência. Pessoas que já passaram por uma cirurgia, ou nem precisamos ir tão longe, por algum evento em que precisaram ser sedadas, ou ainda mais comum, embriagadas, irão notar que naquele momento sofreram de uma grande falta de consciência e perda de memória. Tirando os embriagados e alguns tipos de sedativos, existem drogas que induzem o cérebro a este estado não consciente e sem memória, mas sem detrimento da inteligência. É por exemplo o caso do “Dorminoid”, muito usado para exames de endoscopia ou no sistema digestivo: A pessoa perde a consciência, “dorme”, não se lembra de nada. No entanto, segue as ordens do médico, responde perguntas normalmente. Parece um pouco embriagada por vezes, sem equilíbrio, mas não deixa de ser inteligente. E se todos os outros seres humanos, fora o leitor consciente, na verdade funcionassem desta forma? São seres inteligentes, mas não conscientes? Não temos como provar! Segundo Descartes, “Penso, logo existe”, então eu posso comprovar que eu existo. Segundo George Berkeley, “Existir é ser percebido”, então como sei se existo se não posso garantir que sou percebido? O primeiro afirma que eu existo porque penso, o segundo afirma que os outros existem porque eu os percebo. A única coisa que podemos concluir é que, se penso – e por isto existo e percebo – os outros existem. Mas nada disto nos leva a comprovar a consciência dos outros.

Da observação de nosso universo e seu desenrolar, do fato de que a consciência é secundária, supérflua, desnecessária e até uma complicação demais para um efeito mínimo ou inexistente, e do fato de que podemos provar pelo menos para nós mesmos que somos conscientes, chegamos a conclusão final sobre a grande pergunta: O universo e sua razão estão certamente mais relacionados ao que nós como entidades fazemos e aprendemos, do que com o que a grande civilização atinge em longo prazo.

Nós, como Seres, como espíritos ou entidades seja qual for a crença desejada em se encaixar esta filosofia, somos o foco da razão do universo. O que a civilização faz ou deixa de fazer, e seu destino, são supérfluos. Afinal de contas, deixarão de existir.

Apesar de podemos, portanto, concluir que entre a pergunta do observador ou observado somos ambos o observador e observado, e somos o personagem principal de nossas vidas, ainda não podemos comprovar que os outros realmente existem. Eu, como autor deste texto, sei que existo, sei que sou consciente, e, portanto, para mim, sou personagem principal. No entanto, não posso provar que o leitor é também consciente. Ele é um ser vivo consciente ou apenas uma entidade? Eu, por ser o personagem principal de meu ponto de vista, sou o único personagem? E se não sou, então todos certamente são os personagens principais de suas vidas. Se todos são os personagens principais, como aceitar as grandes diferenças nas condições de vida, oportunidades, tempo e situação de cada um? Porque alguns nasceram há 2000 anos e outros daqui a 2000 anos? Porque uns nascem em berço esplendido e outros na pobreza? Porque uns tem saúde e outros doença? Porque uns vivem alguns anos e outros várias décadas? Se todos têm o mesmo teor de importância por todos serem o personagem principal de suas vidas, como explicar esta grande variação de oportunidades?

Novamente voltamos a uma dicotomia: Ou o Eu que escreve sou o único personagem principal e, portanto, explica-se que as diferenças com outros Seres são irrelevantes, pois eles são personagens secundários deste grande universo; ou todos somos personagens principais de real importância para nós mesmos, e existe uma razão externa para a variação nas condições de vida de cada um.

Por mais que extrapolemos e filosofemos, no fundo, não conseguiremos provar qual das duas verdades é a correta. É provavelmente impossível provar a consciência de outro, afinal, toda a sua atitude pode ser atribuída a inteligência. A consciência é algo pessoal, interno ao Ser, que não pode ser provado para o mundo exterior, e, portanto, não podemos provar que o outro é consciente assim como não podemos provar aos outros que nós somos conscientes. Alguns exercícios de lógica podem até conseguir provar que somos conscientes de nosso papel, de nosso corpo e de nossa unicidade, mas ainda assim, podemos relacionar tudo isto a inteligência, e, diga-se de passagem, animais também têm algum nível de consciência do próprio corpo: O gato que se lambe e se limpa não seria consciente de que aquele é seu corpo? Culpar o instinto é o mesmo que afirmar que, sendo a consciência do gato uma conseqüência ilusória de instintos, a nossa é uma conseqüência ilusória da inteligência.

Aqui fica um exercício para o filósofo de plantão, tentar encontrar um modo de se provar consciente, ou provar que outro é consciente. No entanto, provavelmente por mais que acredite ter encontrado a solução, poderemos mapear para uma ilusão da inteligência: A única consciência que temos prova que é real é a nossa mesma.

Descartes já nos deu esta informação há muito tempo com seu famoso “Cogito, ergo sum” – Penso, logo existo. Com isto, ele quer provar a si mesmo que ele existe, mas é incapaz de provar que os outros existem. Ele também não prova sua necessidade de existência, apenas esta afirmando que existe, no entanto, ele necessariamente existe, e portanto, é possível que ele seja necessário.

Segundo o filósofo Irlandês Berkeley, “Esse est percipi” – Ser é ser percebido. Segundo Berkeley, se nós somos percebidos, se nossas ações tem uma conseqüência no universo a nossa vida, então nós existimos. Apesar de ser correto, Berkeley não prova sua própria existência, mas de forma interessante, ele prova que, do nosso ponto de vista, os outros existem, pois os percebemos. Apesar de não nos relacionar se esta existência é consciente, se é apenas em nossa própria percepção, se é apenas uma imagem de nossa mente, pelo menos Berkeley nos da uma informação importante: o universo a nossa volta existe, e faz parte de nossa existência.

Se unirmos a noção de Descartes de que existimos, e a noção de Berkeley de que o que percebemos existe, então podemos deduzir que o universo existe através de nossa existência. A limitação de Descartes e Berkeley nos impede de provar que o universo existiria sem nós, mas ao mesmo tempo, não prova que ele deixaria de existir se nós não existíssemos. A importância é que, para nós, o universo existe, e se ele existe, deve existir uma razão tanto para nós estarmos nele, como para ele existir em primeiro lugar.

Pode ser que o universo seja uma grande ilusão em nossa mente, e todas as outras pessoas só existam para nós mesmos. Pode ser que todas as pessoas existam, apenas não podemos provar, mas indiferente, qual seria o objetivo desta existência? Uma vez que não podemos provar a existência real dos outros, novamente, devemos voltar a atenção para si mesmos. Talvez seja irrelevante provar a existência dos outros, afinal, mesmo que a comprovemos, não podemos sentir ou saber o que pensam. A importância final permanesceria em nós, no nosso Ego, no nosso Ser. Somos, portanto, Observadores do universo, e observados pelo universo, e independente do universo ser consciente ou não, dos outros terem alma ou não, a nossa razão de existir será a mesma. Qual? Não sabemos ao certo, mas ela não sofre nenhuma alteração se provarmos ou não a consciência dos outros.


Capítulo da evolução – O que fazer com a consciência?

Conforme filósofos de outra era, e conforme neste texto deduzimos a nossa existência através de nossa consciência, o que necessariamente seria o objetivo de nossa existência? Se nós procurarmos a resposta nos filósofos do passado, iremos acabar encontrando a mesma lógica sempre, e portanto não faz sentido apenas citarmos os filósofos de outrora e acreditarmos cegamente que eles estavam certos: Como diria Gilles Deleuze, se algo é óbvio e amplamente aceito, não há nada de errado em voltarmos a origem, ignorando o que outros já afirmaram, e recriar a partir do zero – é o seu chamado empirismo, que afirma que se um conhecimento é transcendental, então ele será atingido de qualquer forma, mas que para podermos melhor compreende-lo, é necessário que nós mesmos o alcancemos, e portanto, utilizar o trabalho dos outros torna-se algo que pode ser incorreto ou tendencioso.

Talvez Deleuze estivesse apenas novamente afirmando o óbvio: As pessoas só aprendem quando sentem em si mesmas o objeto do aprendizado. O que realmente é importante geralmente não se ensina, mas sim se aprende sozinho, pois como bem sabemos, de nada se aprende da história, da escola, do mais velho: O mundo atual, o formando e o novo estão sempre cometendo os mesmos erros do passado, avisados na escola, ou ensinado por seus antepassados. Apenas quando um realmente aceita por si próprio a verdade transcendental, é que ele realmente a atinge. Talvez o Empirismo de Deleuze seja baseado nisto, ou talvez seja apenas uma noção que podemos mapear para este fato da nossa natureza.

E portanto, descrever todos os passos para atingirmos um ponto é importante para ajudar – mas não necessariamente garantir – a compreensão sobre um conceito. De fato, uma pessoa pode já ter pensado e concluído tudo o que os antigos sábios passaram anos – séculos – elaborando, enquanto outras podem passar a vida lendo tudo o que os sábios disseram, estudando e procurando a resposta, mas nunca a encontrando porque, de fato, ela esta dentro de você, e não fora. O transcendental – talvez – nasça conosco. Talvez seja como a “anamnésia” de Platão, onde a alma já tem todo o conhecimento em si, exceto que a “esquece” ao nascer. Nosso objetivo não é encontra-lo, mas sim aceita-lo.

Mas ainda assim, não custa darmos uma olhada no que já foi pensado sobre o assunto. Por exemplo, vejamos um pouco do que Aristóteles, aprendiz de Sócrates e Platão, tem a dizer sobre o caminho da virtude.

Segundo Aristóteles, um dos objetivos (se não o mais importante) do ser é atingir a virtude plena. Para tal, é necessário que o ser atinja, em ordem, três passos: Uma vida de hábito, uma vida de equilíbrio, e uma vida de beleza. A tradução das obras de Aristóteles sempre foi alvo de muitas interpretações, mas no final, o que ele realmente quis dizer é facilmente notado por aqueles que estão a procura da essência do conhecimento de Aristóteles, e não de sua tradução literal.

Como hábito, Aristóteles não afirma que devemos ser seres de hábitos que agem por impulso sem pensar. O que ele realmente trata em sua filosofia é que o ser nasce com hábitos: vícios e instintos, hábitos estes que, segundo Aristóteles, são impossíveis ou muito complexos de serem perdidos, sendo consideravelmente mais simples criar novos hábitos que os anulem. Se tivermos um vício, se temos uma característica que acreditamos ser incorreta, geralmente trabalhamos justamente para agir da forma oposta. No início é complicado, esquecemos, temos que colocar lembretes, os famosos lacinhos no dedo. Com o tempo, no entanto, esta tentativa de se anular nosso vício se torna um Hábito. Este é o Hábito de Aristóteles, o Hábito que nos aproxima da virtude ao anular um outro Hábito que outrora nos afasta dela.

Uma pessoa de Hábitos, portanto é aquele que aceita que muitas coisas precisam se tornar um hábito, porque muito antes de conseguirmos pensar antes de agir, nossos hábitos agem automaticamente, e portanto, para competir com esta agilidade, apenas novos Hábitos. Talvez Aristóteles nunca tenha aceitado que seja possível o oposto, jogar fora todos os Hábitos. No entanto, talvez dentro de sua genialidade, ele justamente nos diz que entre não ter nenhum Hábito e ser obrigados a pensar antes de agir, ou ter Hábitos virtuosos e positivos que nos ajudem em nossa busca pela virtude, a última opção é melhor.

O segundo passo é o equilíbrio, que vem praticamente como conclusão da explicação dos Hábitos: é necessário atingir um equilíbrio entre os Hábitos, e ai esta a genialidade de Aristóteles: Se tivermos um equilíbrio entre os Hábitos, então nenhum deles irá agir pois se anulam, e portanto, ao sermos uma pessoa de Hábito, ao contrário do que parece, não estamos nos tornando criaturas que agem apenas pelo Hábito, mas muito pelo contrário, utilizamos os Hábitos para se anular e permitir que possamos pensar antes de agir (pois uma pessoa com os Hábitos desequilibrados iria agir antes de pensar – por hábito). E ainda, não negando o primeiro passo, Aristóteles aceita que mesmo que alguns Hábitos existam de forma desequilibrada, se estes forem em prol da virtude, podem ser considerados equilibrados. Ou seja, o equilíbrio não é ter “n” hábitos positivos e “m” hábitos negativos de forma que “n” = “m” e se anulem, mas sim, ter hábitos positivos suficientes para anular os negativos, e talvez outros a mais que nos ajudem a agir de forma correta sem precisar pensar – mas nunca, obviamente, menosprezando a importância do raciocínio.

Finalmente, o último passo para atingir a virtude suprema é a beleza (que alguns traduzem como nobreza, ou bondade, mas beleza é mais abrangente e com menos laços pejorativos a seu termo). Basicamente, para Aristóteles, os atos de virtude são aqueles que podemos chamar de belos. São aqueles atos que quando fazemos, os outros afirmam ter sido um ato belo, da mesma forma quando fazemos algo errado, são chamados de atos feios. Para Aristóteles, existem 3 tipos de atitudes para a qual o bem pode ser caracterizado: o prazeroso, o belo, e o benéfico (ou em sua vantagem). O último é obviamente subordinado aos outros dois, pois o que é benéfico para todos é belo, e por ser belo, é prazeroso, e, portanto, pode-se dizer que o benéfico é uma forma de beleza ou prazer. Aristóteles eventualmente nos leva a crer que o prazeroso é belo em sua própria forma, e chega a conclusão que os atos bons são sempre belos.

Os sábios e filósofos sempre chegaram a conclusão que o objetivo da consciência é promover de alguma forma a virtude de Aristóteles. A razão é bem simples: se, como vimos antes, nada da sociedade ficará, nada de nosso Ser material ficará, e portanto, apenas podemos levar para outro plano nossas atitudes, é apenas natural acreditar que estejamos aqui para promover a virtude e evoluir nossos hábitos – equilibra-los, e atingir a virtude suprema da beleza dos atos. O primeiro sábio de todos não é assim chamado à toa.

Aristóteles também elabora sobre amor, amizade e justiça, e eventualmente conclui que o caminho da virtude é a amizade. O amor pode chegar a extremismos, a justiça pode ser complexa e gerar um ciclo de punição e benefícios, enquanto que a amizade é a única que gera a verdadeira virtude – e entre amigos, a justiça sempre prevalece, e todos se amam, englobando portanto os demais.

Se nosso objetivo é evoluir nossas virtudes, e o meio de atingir tal objetivo é estimular a amizade, temos ai o provável objetivo da existência. O Ser existe para evoluir. Como Aristóteles foi indiretamente um aprendiz de Platão, podemos nos arriscar a dizer que sua filosofia é Platônica. Ao notarmos que os ensinamentos destes sábios nos levam a conhecimentos transcendentais universais, acabamos dando o nome de “Platônicos” a tudo que é utópico ou talvez até perfeito. O objetivo “Platônico” do Ser, portanto, é a evolução através da beleza e amizade. Mas a beleza e amizade não seriam justamente a empatia entre os Seres?

Este também é um caminho compartilhado pelas religiões mais filosóficas, como o Espiritismo ou Budismo (inclusive o Budismo básico, não religioso). O Budismo, por exemplo, prega que nossa vida não deve ser apenas de trabalho nem apenas de diversão, mas sim uma linha bem no meio entre ambos – e de fato, os ensinamentos Budistas vão além: o equilíbrio não é, por exemplo, pegar um dia para trabalhar e um dia para se divertir, mas sim atingir o equilíbrio entre eles simultaneamente. É saber a hora certa de parar para um ou outro, é divertir-se enquanto trabalha, é se divertir com responsabilidade.


Capítulo do sofrimento – “Duhkha” e “Katharsis”

Segundo o Budismo, a vida é “Duhkha”, traduzido geralmente para “sofrimento”. Na verdade, uma tradução mais adequada é “incômodo”. Conforme Steve Hagen descreve em seu livro “Buddhism Plain and Simple”, a vida é como uma carroça com uma roda defeituosa. Conforme você anda nela, ela incomoda, cada buraco na estrada ou pequeno desnível causa um grande incômodo. As vezes a paisagem é bela, ou a conversa com o companheiro de viagem é interessante e você deixa de notar este incômodo, por outras temporariamente se acostuma e não liga, enquanto outros momentos se irrita e começa a reclamar o quão chato aquela “roda” é. O Budismo prega que no fundo, a origem do “Duhkha” é de nossa vontade (porque estamos na carroça afinal? Se queremos parar o “incômodo” basta sair da comodidade da carroça e ir a pé!). Basicamente, os 4 ensinamentos budistas são bem simples: Um, a vida é “Duhkha” (sempre algo nos incomoda); segundo, existe uma razão para este “Duhkha” (que são nossas vontades, sonhos, prazeres e objetivos. Não que estejamos errados em ter nenhum dele, longe disto, o Budismo em nenhum momento prega abrir mão de nossos sonhos ou prazeres, apenas nos informa que a origem de nosso incômodo com a vida são eles: enquanto não o alcançamos, conforme a vida nos mostra que atingir tudo que queremos não é tão simples, sofremos. Ou seja, se nós abríssemos mão de todos nossos desejos e anseios, talvez não tivéssemos mais sofrimento, mas ai isto não seria uma vida! A segunda verdade apenas prega que sofremos porque queremos e, portanto, temos que ter pelo menos consciência de onde vem o sofrimento se queremos seguir nossa vida); terceiro, existem modos de acabar ou evitar o “Duhkha”, que já fica bastante claro conforme vislumbramos a explicação da segunda verdade: temos que abolir e evitar qualquer desejo ou objetivo que não seja realmente útil para nós, concentrando-se apenas nos presentes e possíveis, reduzindo assim a quantidade de “origens” para o sofrimento, e para os que sobram (os sonhos e objetivos que optamos em seguir), temos que aprender a aceitar e lidar com a angustia ou frustração que dele possam vir. Finalmente, a quarta verdade são 8 caminhos para encontrar a redução do “Duhkha”, ou seja, dicas e idéias sobre como reduzir ao máximo o impacto do sofrimento em nossas vidas.

O Budismo báscico não é bem uma religião. Apesar dele abordar vários aspectos religiosos, ele o faz apenas para demonstrar que a religião é uma enorme ~ se não a maior ~ fonte de “Duhkha”: As pessoas se matam por seus ideais religiosos, sendo que a religião é apenas uma especulação, uma idéia abstrata sempre longe da realidade, que cada um tem de como deve ser o mundo. Realmente, como encontrar a paz de espírito e uma vida sem sofrimento se seguirmos filosofias que não tem nenhuma base lógica nem concreta, e levanta mais perguntas do que respostas, como são as Religiões? Segundo Buda, o correto não é pensar se existe vida após a morte (os eternalistas), ou não (os materialistas), mas sim ... não ligar para isto, pois isto não é no fundo importante para nossas vidas no agora. Não teremos uma resposta, é apenas um incômodo, um sofrimento, ficar discutindo sobre algo que nunca poderemos saber a verdade.

O caminho óctuplo por vezes é interpretado de forma um pouco complexa pois é altamente abstrato. Alguns dos conceitos do budismo podem levar anos para uma pessoa compreender porque, de fato, são mais conceituais e filosóficos do que realmente parece. Em resumo:

1. Visão correta: implica o conhecimento das Quatro Nobre Verdades supracitadas;
2. Intenção correta: desejo de permanecer no Caminho que conduz à iluminação;
3. Palavra correta: falar de uma forma clara, e, sobretudo, não fazer uso de uma linguagem agressiva ou maliciosa. O iluminado só tem fala construtiva, nunca destrutiva;
4. Atividade correta: implica seguir cinco regras básicas, que são não matar, não roubar, não mentir, não ingerir substâncias intoxicantes e não ter uma conduta sexual incorreta; Todas, no entanto, dependendo de seu discernimento dependendo do contexto.
5. Meios de subsistência corretos: ter uma forma de ganhar a vida que não implique o sofrimento dos outros Seres (ou o próprio) e a desonestidade;
6. Esforço correto: praticar a autodisciplina de modo a evitar as paixões (sonhos ou objetivos exagerados e fúteis);
7. Memória ou atenção correta: implica a auto-análise constante dos pensamentos e ações;
8. Concentração correta: é o objetivo final, que é entrar no estado de Nirvana.

O primeiro caminho é compreender que a verdade é única e não pode ser conceitualizada, e a melhor forma é aceitar e conhecer as quatro nobre verdades (A vida é sofrimento, existe uma causa, existe uma solução, a solução pode ser alcançada pelo caminho óctuplo). Segundo Buda, não devemos depender de um livro, uma pessoa ou em absolutamente nada para criar nossos conceitos da verdade: devemos simplesmente vê-la. Seria como o famoso “dar um passo para trás e ver a grande figura”. Justamente porque as pessoas estão acostumadas a acreditar que sabem apenas aceitando uma versão resumida e empacotada da verdade, acabam encontrando problemas, discrepâncias e erros na informação, e portanto acabam ficando ansiosas que não sabem realmente o assunto. Se pararmos sempre para aceitar a realidade como ela realmente é, e não como alguém a descreve, teremos a visão correta: não devemos crer, mas sim ver. Uma vez que vemos a realidade, nada poderá mudar nossa iluminação, pois a realidade é única. É como a brincadeira da imagem da vaca proposta no livro de Steve Hagen. Trazido para nossa vida contemporânea, isto também implica que se queremos ver uma determinada realidade, devemos ir atrás dela sozinho, sem nenhuma tendência. Por exemplo, acreditar no que a mídia fala, dando suas versões empacotadas e tendenciosas, é um erro. Se realmente queremos saber (e ver) devemos pesquisar, ver todos os lados do problema, e nos livrar da manipulação e tendenciosidade dos outros.

O segundo caminho implica que devemos ter a intenção correta de nos livrarmos das origens do Duhkha e prosseguir para uma vida iluminada. Novamente não é tão simples como parece: a intenção de atingir a iluminação por si só não é correta, pois é uma inclinação da mente, um “bias”. A Intenção correta, na verdade, é não ter intenção alguma! Ou seja, livrar a mente de qualquer objetivo claro que possa nos causar ansiedade conforme não é atingido. É algo parecido com a idéia do primeiro caminho: não devemos ter a intenção de fazer algo, devemos simplesmente faze-lo. A intenção correta portanto é a ausência de intenção: pois devemos agir, e não ficar só na intenção. Em uma bela analogia, diz-se que o caminho da iluminação é tal que, se você começar a trilha-lo, já chegou ao fim, não existe “meio do caminho”, ou você se concentra com a visão e intenção correta, ou estará tendo uma mente tendenciosa e incorreta. A iluminação não possui um caminho, ou você a atinge, ou nem começou a encontra-la.

O terceiro caminho nos incentiva a ter a palavra correta: aqui, não estamos obrigando as pessoas a não mentirem, mas sim a agir de forma correta. Uma analogia muito usada é que o iluminado sempre fala e age em prol de unir e causar compreensão, tolerância e união entre as pessoas, nunca a separação e discordância. Faltar com a verdade as vezes pode ser parte da palavra correta se, no geral, ela for o caminho correto.

A Atividade correta, quarto caminho, muitas vezes oferece algumas regras básicas, mas de fato o budismo real não explicita nenhuma regra. Simplesmente afirma que devemos ter atitudes condizentes com nosso empenho em evitar o Duhkha, com a intenção e palavra corretas. Ao invés de ficar delimitando regras que podem ser mau interpretadas ou, pior ainda, seguidas ao pé da letra levando a problemas quando deveriam ser simplesmente interpretadas, a Atividade correta justamente pode ser interpretada como agir com empatia, com a virtude platônica.

O quinto caminho é relativamente óbvio: ter uma forma de vida e subsistência que não causem problemas para outros, que não sejam viciantes nem causem vícios. Novamente, através da empatia com outras pessoas e da virtude platônica, podemos facilmente compreender que existem profissões que não prezam pelo bem de todos e, portanto, não são formas de vidas dignas de alguém que quer evitar seu próprio sofrimento, ou de outros.

O esforço correto implica em não agir de forma que possam levar ao vício (seria o balanço da virtude platônica), ou seja, aplicar sua energia em atividades benéficas e iluminadas que não vão gerar mais sofrimento do que se não fossem feitas.

A atenção correta, sétimo caminho, é muito interessante. Muitas pessoas acreditam que a meditação, a limpeza da mente, se da ao agir de forma a limpar a mente de pensamentos e idéias inapropriadas para o momento, principalmente durante um ritual de meditação (que é muito usado no budismo como um momento no dia para relaxar o corpo e mente para se preparar ou recuperar de um dia). No entanto, a atenção correta justamente não é atentar em não pensar. É como tentar seguir uma simples ordem: “Não pense em um elefante”. É impossível, quanto mais você quiser não pensar em um elefante, mais elefantes vão aparecer em sua mente! A idéia da atenção correta é justamente ignorar os chamados “pensamentos passageiros”: deixe que eles venham, ignore-os, e eles irão passar. Em uma bela analogia, o iluminado em meditação é como uma montanha e os pensamentos são nuvens: elas passam, mas não derrubam a montanha. Durante a meditação, ou quando estamos nos concentrando ou atentando a algo, se pensamentos paralelos ocorrerem, não devemos atentar a eles de forma a tentar elimina-los, pois isto só os alimenta (Não pense em um elefante!), mas sim ignora-los completamente, pois assim como apareceram em nossas mentes do nada, irão sumir se não forem a atenção correta desejada.

Durante a meditação, vários pensamentos passam na cabeça da pessoa, até mesmo pensamentos como “estou fazendo a coisa certa?” ou “não estou conseguindo me concentrar direito”. A atenção correta prega que isto é normal, e a ação correta é apenas ignora-los e manter a atenção e concentração no que estamos fazendo, seja a meditação, seja nosso trabalho ou tarefa. Dar ouvidos à estas dúvidas ou pensamentos paralelos, mesmo que na tentativa de elimina-los, só vai alimenta-los (Não pense em um elefante! ... quando eu parar de escrever isto a cada parágrafo, ai sim você vai parar de pensar em um elefante!)

E de certa forma, para atingir a atenção correta, devemos ter a concentração correta, que é justamente concentrar-se em NADA. Obviamente, este caminho esta mais relacionado aos momentos de meditação onde estamos relaxando a mente e corpo, pois não podemos trabalhar ou seguir nossos sonhos nos concentrando em nada. No entanto, ao meditar e focar nossa atenção em nossa medicação, devemos nos concentrar no vazio, e ignorar “os pensamentos nuvens” que surjam para que eles sumam como surgiram: do nada, repentinamente. Alguns pensam que não meditam ou nunca meditaram. Estão errados. Quando vão para a cama e tentam dormir, estão nada mais nada menos que meditando – tentando se livrar de pensamentos e idéias para conseguir dormir.

O Budismo não prega ações nem inações, não exige nada da pessoa, de fato, você pode ser um Católico budista, um Protestante Budista, ou muçulmano Budista. O Budismo original é apenas uma filosofia de vida para reduzir ao máximo o sofrimento, o Duhkha, e assim melhorar nossa qualidade de vida. Obviamente, com o tempo, várias pessoas começaram a unir conceitos religiosos, rituais e costumes, e várias escolas do Budismo surgiram. Por exemplo, o Zen Budismo é uma religião budista amplamente difundida no Japão, é baseado no Budismo, nas quatro nobre verdades, mas adiciona crenças religiosas, cerimônias, rituais (para ajudar a meditação e atingir a iluminação propostas no budismo original), etc... mas não é realmente o budismo original de Sidarta. Da mesma forma que existe o Zen Budismo, existem dezenas de outras escolas Budistas pelo mundo, cada um com sua crença e rituais diferentes.

E é por isto que o Budismo é algo interessante para ser citado nesta obra a caminho da virtude Platônica: não estamos tratando do Budismo religião, mas sim de seu original conceito de forma de vida, que inclusive descarta a religião por ser uma origem extra de sofrimento. As verdades e caminhos budistas são muito parecidos com a virtude Platônica, e de fato, também podem ser atingidas seguindo a empatia por nós mesmos e por outras pessoas.

Não importa o budismo ou as filosofias virtuosas de Aristóteles, ambos pregam a mesma abordagem: o equilíbrio das emoções, a consciência da origem do sofrimento e sua manipulação e aceite, e a nobreza de nossas ações através da “beleza” parecem ser transcendentais.

Algo ainda mais interessante não é a semelhança entre a filosofia oriental do budismo e a ocidental de Aristóteles, mas sim notarmos que ainda antes de Aristóteles, Platão e Sócrates descreviam a anamnésia (em “Meno” e “Phaedo” de Platão), onde eles descrevem a alma como uma entidade não só eterna mas com o conhecimento infinito, sendo que, por opção ou no choque do nascimento, sofrem de anamnésia, ou esquecimento seletivo de todo o conhecimento. O aprendizado dos conceitos transcendentais, portanto, não são na verdade um aprendizado per se, mas sim uma forma de relembrar o que estava esquecido. Segundo Platão, é justamente a poluição da mente e do corpo que nos evita lembrar o verdadeiro conhecimento, e sugere a “katharsis“, ou purificação e limpeza da alma como forma de atingir o verdadeiro conhecimento: na “katharsis”, devemos nos livrar de todas as formas de sentimento e percepção obtida pelo corpo físico, pois este é sujeito ao erro, ele apenas nos dá uma forma conceitualizada e “enlatada” do que é a realidade, e então devemos nos aprofundar no raciocínio, na visão da realidade como é e não como parece, para atingir o conhecimento.

As semelhanças da “katharsis” de Platão com o caminho óctuplo de Buda são fascinantes. Mais uma prova que o conhecimento transcendental é único e que os grandes filósofos estão apenas “reinventando a roda”. Dando nomes diferentes, formas diferentes, ao que na verdade é uma única realidade. Ainda mais tarde, Jean-Jacques Rousseau repetiria muito destes conceitos em diversas de suas obras, como o “Contrato Social”, onde ele descreve o ser humano como originalmente bom (“O nobre selvagem”) cuja sociedade através de seus vícios, limitações e obrigações distorce e corrompe. Novamente, é livrando-se desta corrupção da sociedade – da propriedade privada e do prazer sensorial – que o “nobre selvagem” pode continuar bom. Já em “Discourse on the Arts and Sciences”, Rousseau chega a ponto de afirmar que a ciência e a arte são negativas ao ser humano porque em nenhum momento elas fazem parte da necessidade do ser humano, mas são apenas fruto da luxúria e orgulho, onde o homem tenta atingir ideais que, no fundo, nunca precisou. O artista tenta se aperfeiçoar em sua arte sofre tentando criar uma obra mais bela que a outra, sem notar que é um sofrimento vão. O cientista luta para ser reconhecido e desenvolver o bem da “humanidade”, esquecendo de si mesmo, muitas vezes acabando por descobrir e desenvolver recursos e tecnologias que são usadas para o mal, quando tudo que ele precisava fazer era agir com virtude e dignidade.

Segundo Rousseau, em “Discourse on Inequality”, o ser humano original tem apenas um instinto básico de se cuidar e uma disposição natural para compaixão e piedade (empatia), mas conforme a população aumentou, e a ciência e tecnologia deu mais poderes a governos enquanto religiosos e filósofos ampliaram a influência de seus ideais na sociedade, o homem acabou por se corromper.

Por causa de tantos conceitos e preconceitos dentro da sociedade e do Ego, nossos ideais distorcidos, sonhos sobre coisas que na verdade não precisamos, aspirações egoístas geradas por puro orgulho ou inveja, acabamos nos desligando do que realmente é importante, passamos pela vida sem viver. Diz o filósofo chinês Yang Chu ainda no século IV a.C.:

“Passamos pelo mundo numa trilha estreita, preocupados com coisas insignificantes que vemos e ouvimos, remoendo nossos preconceitos, passando pelas alegrias da vida sem sequer saber que perdemos algo. Nunca por um momento provamos do vinho estonteante da liberdade. Estamos verdadeiramente presos, como se estivéssemos no fundo do calabouço, atados a cadeias”.

Podemos encontrar outros filósofos que nos remetem de volta a katharsis ou a iluminação budista – inclusive esta obra. De fato, nós sabemos que eles estão corretos, é apenas muito difícil em nossa sociedade conseguir sobreviver abrindo mão do que a sociedade nos obriga a ter e ser.

Apenas aceitando e controlando o “Duhkha” (os incômodos da vida), quer seja com a iluminação (budista) ou a katharsis (raciocínio e emoção acima dos sentidos e percepções), podemos realmente ser livres. E uma